Design de Experiência do Usuário é Arte ou Ciência?

O UX Design está mais próximo da ciência ou das artes? Neste artigo, discutiremos qual dessas áreas tem maior influência no UX.
Design de Experiência do Usuário é Arte ou Ciência?

Pesquisar, desenhar telas, construir protótipos, rabiscar sketches, wireframes e desenvolver interfaces. Essas são algumas atividades dentro do UX Design.

Se tiramos uma conclusão precipitada a partir dessas tarefas, podemos dizer que o UX Design é uma área muito artística! Afinal de contas, desenhar, criar, imaginar, são verbos inerentes ao artista, não?

Bem, a discussão não é tão simples assim. Existe uma série de outras atividades dentro do dia a dia do UX Designer que talvez não sejam tão artísticas no final das contas.

Na verdade, a base de muitas teorias e conceitos do UX se dá a partir do método científico!

Ficou curioso? Que bom! Continue aqui e acompanhe o raciocínio!

UX Design é arte ou é ciência?

Quando pensamos em certas áreas profissionais como a música, a escrita, artes cênicas, fica fácil a associação com o mundo das artes — embora ainda possa haver alguma leve discussão.

Assim como quando pensamos em engenharia, matemática e biologia, por exemplo, não restam dúvidas de que estamos falando de profissões relacionadas à ciência.

No entanto, existem algumas áreas e profissões em que essa definição — se arte ou ciência — não fica clara tão rapidamente. Esse é o caso do UX Design.

Talvez essa confusão aconteça por julgarmos que qualquer atividade de criação seja artística. E o UX Design, como bem sabemos, cria muitas coisas: telas, protótipos, wireframes, mapas, jornadas, personas, etc.

Mas ao mesmo tempo, o UX Designer se baseia em diversas metodologias, pesquisas, deve saber sobre negócios, KPIs e gerenciamento de projetos.

Portanto, o que prevalece? Ou qual a definição mais correta e coerente para o UX?

Para colocarmos todos na mesma página, vamos observar rapidamente a definição do que é arte e o do que é ciência.

Arte vs Ciência

É claro que a resposta para "o que é arte?" abre muitas possibilidades de discussão; e esse não é o objetivo desse texto.

Nesse sentido, o que traremos aqui é o conceito mais simples — de dicionário — e não entraremos em sua subjetividade. A ideia é apenas dar um suporte para as próximas ideias desse artigo.

Portanto, podemos colocar que arte está relacionada às atividades humanas com fins estéticos e/ou comunicativos, criadas a partir da expressão de ideias, sentimentos e emoções percebidas do ponto de vista do próprio artista.

Em contrapartida, quando falamos sobre ciência — aplicando a mesma lógica de definição sem entrar em demais subjetividades — temos que a ciência é a capacidade de adquirir conhecimentos, validados por meio de métodos experimentais (científicos).

A característica importante da ciência está justamente nesse conceito: método científico. É com ele que poderemos entender melhor sobre as similaridades — ou não — entre a ciência, a arte e o UX Design.

Dica de Leitura: UX Design: O Que é e Como Atuar na Área?

O que é o método científico?

Método científico é um processo — mundialmente conhecido e difundido — em que adquiri-se conhecimento por meio da experimentação e da coleta de evidências.

Dessa forma, o método científico é usado para encontrar respostas para perguntas por meio da observação e testes práticos.

Basicamente, podemos dividir esse processo em alguns passos fundamentais. Embora existam diferentes tipos de métodos científicos, as etapas principais são sempre as mesmas:

Processo padrão de método científico

1) Faça uma pergunta

O processo do método científico começa com uma pergunta sobre algo que você observou. Como, por que, o que, quando, são como geralmente se iniciam as perguntas.

Não faz sentido aplicar o método sem a vontade de responder uma pergunta, ou aprender e conhecer sobre algo.

2) Realize uma pesquisa

A segunda etapa do método científico diz respeito a efetuar uma pesquisa.

No entanto, essa pesquisa não é no sentido de descobrir a resposta para a sua pergunta, mas se já foram feitos outros experimentos a respeito dessa sua questão.

Além disso, efetuar essa pesquisa — que em UX Design chamamos de Desk Research — ajuda a coletar informações sobre erros, acertos, outros pontos de vista e como você pode estabelecer esse novo processo de método científico.

É claro que, nessa etapa, talvez você se depare com um experimento que visou responder exatamente a pergunta que você fez. Nesse sentido, vale a pena entender o que foi feito e decidir se os resultados te satisfazem ou se você acredita que deve efetuar outros testes.

O mais incrível do método científico é que a mesma pergunta pode ser testada diversas vezes, com o intuito de se provar cada vez mais essa verdade, ou para se demonstrar que existe um ponto de vista que ainda não havia sido comentado ou observado.

3) Construa uma hipótese

O próximo passo do método científico é a formulação de uma hipótese.

A hipótese nada mais é do que uma tentativa de responder à pergunta elaborada, mas de uma forma que possa ser testada e validada.

No processo do método científico, a formulação de uma hipótese é o que vai guiar o cientista a entender quais as soluções são eficazes ou não para atender ao problema encabeçado pela pergunta.

Além disso, é importante ressaltar que uma mesma pergunta pode criar diversas hipóteses — e não apenas uma — que devem ser devidamente testadas.

4) Teste a hipótese

Testar é imprescindível dentro do método científico para poder validar se as hipóteses são de fato eficazes ou não.

Nesse momento, é importante efetuar testes justos, sem vieses; e talvez testar a mesma hipótese mais de uma vez.

5) Analise e divulgue os resultados

Depois de testar a hipótese, a análise dos resultados confirmará — ou não — a sua eficácia diante da pergunta estipulada.

É muito comum que os testes tragam resultados invalidando a hipótese, e está tudo bem. Faz parte do processo encontrar hipóteses que não são sustentáveis.

Quando isso acontece, o processo volta para a etapa de pesquisa e de formulação de outras hipóteses, em um fluxo iterativo.

Além disso, independente se o resultado foi positivo ou negativo, é importante formalizá-los e divulgá-los com o intuito de comunicar o que foi feito, inclusive para que seja usado para pesquisas e testes futuros.

De maneira simplificada, esses são as etapas principais dentro de um método científico.

Dessa forma, o método científico é uma maneira de validar uma hipótese, com base em testes e em pesquisas, para que uma pergunta/problema seja solucionado.

Soa familiar?

Metodologia científica vs metodologia em UX Design

Como visto acima, a metodologia científica em muito se assemelha com as metodologias que existem em UX Design.

Se analisarmos o Double Diamond, por exemplo, conseguimos encontrar diversas similaridades com o método científico.

O Double Diamond é composto por 4 fases distintas: Descobrir, Definir, Desenvolver e Entregar.

Double Diamond

Descobrir e Definir estão relacionadas com as etapas iniciais do método científico, quando elaboramos uma pergunta, fazemos uma pesquisa e definimos uma hipótese. Em outras palavras, identificamos o problema e definimos uma — ou mais — hipótese para solucioná-lo.

Já as fases de Desenvolver e Entregar se relacionam com o teste da hipótese e análise de resultados. Aqui, em UX Design, constroem-se protótipos que passarão por testes de usabilidade com os usuários.

Entenda melhor as fases do Double Diamond

Além do Double Diamond, conseguimos associar o método científico com outras metodologias em UX Design.

Design Thinking

O processo de Design Thinking é composto por 3 grandes etapas:

  1. Compreender: que contempla pesquisas sobre o usuário e quais são as suas necessidades, podendo ser associado com a fase de pergunta e pesquisa do método científico;
  2. Explorar: em que são idealizadas soluções (criação de hipóteses do método científico) e a criação de protótipos;
  3. Materializar: que consiste em testes e na implementação da solução, sendo comparada às fases de teste de hipótese e análise de resultados

Lean UX

O Lean UX é conduzido a partir de 3 grandes ideias:

  1. Pensar: está relacionado com a criação de premissas que serão base para hipóteses, as quais visam solucionar um dado problema em um certo contexto;
  2. Fazer: é a etapa em que cria-se o Minium Viable Product (MVP) que atenda às necessidades do usuário;
  3. Checar: quando são feitos testes com os usuários para a validação — ou não — das hipóteses criadas na primeira etapa.

Design Sprint

O Design Sprint é uma metodologia criada pelo Google e pode ser quebrada em 5 etapas:

  1. Mapear: onde o foco é entender o problema e realizar pesquisas, como nas duas primeiras etapas do método científico;
  2. Esboçar: criar ideias de possíveis soluções para o problema mapeado;
  3. Decidir: escolha da hipótese a ser testada;
  4. Prototipar: desenvolvimento da solução
  5. Testar: validação da solução, confirmando ou não as hipóteses criadas;

A partir desses exemplos conseguimos identificar as semelhanças e as relações entre o método científico e o UX Design.

De maneira geral, a pesquisa, a criação e validação de hipóteses estão sempre presentes no UX e isso faz com que seus processos e resultados sejam consistentes, confiáveis e eficientes.

Mas além dessas semelhanças, podemos relacionar o método científico com o UX Design de uma outra forma: a partir da psicologia.

Psicologia e UX Design

Se por um lado as metodologias em UX Design se assemelham ao método científico, na parte prática da ciência, a psicologia faz essa relação com a parte teórica.

Nesse sentido, é importante lembrar que a psicologia é uma ciência que visa estudar a mente e a sua influência no comportamento humano — isso posto de uma maneira mais simplificada.

A relação entre o UX Design e a psicologia acontece justamente nessa necessidade de entender melhor o pensamento e o comportamento dos usuários, para que sejam desenvolvidas soluções capazes de proporcionar uma boa experiência.

Dessa forma, as principais categorias que se aplicam à UX são: a psicologia cognitiva e a psicologia comportamental.

A psicologia cognitiva estuda temas como a memória, atenção, percepção, linguagem e tomadas de decisão.

Já a psicologia comportamental estuda estímulos e condicionamentos que podem influenciar o comportamento das pessoas.

Nesse sentido, a psicologia é fundamental para o UX Design por contribuir para o entendimento dos usuários e como eles reagem aos estímulos das interfaces.

Observando dessa forma, entendemos que o UX contempla conceitos científicos para basear as suas próprias teorias e metodologias.

O que queremos pontuar e deixar claro nessa seção é que por trabalhar com estudos e conceitos científicos, o UX se aproxima cada vez mais da ciência, como uma área mais racional e menos emocional.

Dica de Leitura: A Importância da Psicologia em UX Design

Mas e a criatividade, a intuição e a criação em UX?

Chegando até aqui, ficou claro que a balança do UX Design tende a pender para o lado da ciência mais do que para o lado das artes.

Em contraponto a esse pensamento, podem surgir algumas questões como: Mas e a criatividade? A criação? A intuição do designer ao criar um produto? Isso não faz parte de algo artístico?

Vamos por partes.

A criatividade é um processo, como bem pontua Susan Weinschenk: "Criatividade é um processo que tem como resultado algo original e de valor."

Sendo um processo, a criatividade permite que haja certo controle sobre ela. Ao contrário do que muitos pensam, ser criativo não é criar livremente, nem uma maneira de se expressar ou algo exclusivo de artistas.

O UX Designer, por exemplo, usa a criatividade na hora de propor hipóteses e soluções para resolver as necessidades dos usuários e, claro, ao criar wireframes e protótipos.

Mas o fato do designer usar a criatividade não necessariamente faz com que ele seja um artista, justamente pelo fato de não usá-la para expressar um sentimento ou uma opinião pessoal. Ele usa a criatividade, aliada ao método científico, para desenvolver soluções que atendam às necessidades do usuário.

Dessa forma, a criatividade faz parte sim do UX Design, não de uma forma artística, mas como um processo de desenvolvimento.

E a intuição?

Ser intuitivo passa o entendimento de algo instintivo, inconsciente, ligado à sobrevivência.

Apesar de designers muito experientes usarem da intuição, na verdade ela é fruto da vivência e experiência pessoal de cada um.

Não há nenhum indício de que a intuição seja mais assertiva do que a pesquisa e a aplicação de métodos científicos.

Portanto, há dois erros ao dizer que a intuição em UX Design está relacionada às artes:

  1. UX Design não deve se basear em opiniões e gostos pessoais para basear as tomadas de decisão, uma vez que nós não somos nossos usuários, precisamos de pesquisa para entender qual o melhor caminho a seguir;
  2. A intuição por si só também não pode ser considerada algo ligado somente aos artistas. Na verdade, essa associação talvez seja um pouco incorreta.

Por que UX Design é mais ciência do que arte?

Para encerrar o ponto de vista colocado nesse texto, vamos considerar algumas análises que confirmam ainda mais que o UX Design é ciência e não uma arte.

1) UX Design resolve problemas, a arte não necessariamente

A proposta do UX Design é criar produtos e soluções para atender aos problemas e às necessidades dos usuários. Ou seja, possui um objetivo prático e direto.

Por outro lado, a arte não tem o papel de resolver problemas.

Manifestações artísticas podem identificar, criticar e opinar sobre problemas existentes no mundo, mas dificilmente a arte por si só vai conseguir resolver essas questões.

2) UX não é subjetivo, a arte sim

Para uma interface, um produto ou um design, de maneira geral, ser bom e eficiente, ele precisa ser direto.

Não há espaço para subjetividade no UX Design. O usuário precisa entender a interface e conseguir navegar de forma simples e intuitiva.

A arte tende a ser mais subjetiva do que objetiva. Ela trabalha com o olhar e com a expressão do artista, o que pode levar a peças difíceis de interpretar.

Dica de Leitura: Leis de UX: Os Princípios Básicos de UX Design

3) UX Design utiliza métodos científicos

A maior parte desse artigo foi baseada no argumento do método científico e o UX Design, mas é sempre bom reforçar.

Para o desenvolvimento de um bom design de experiência, é fundamental que o designer utilize métodos científicos para conseguir compreender o usuário, seu contexto e suas necessidades.

Não há espaço para achismos ou gostos pessoais. O método científico procura respostas para perguntas, cria hipóteses e as valida. E é exatamente esse o processo que muitas metodologias em UX devem seguir.

4) UX Design pode ser ensinado

Esse último ponto pode criar bastante discussão.

O UX Design é uma área de conhecimento que pode ser ensinada. Inclusive, há diversos cursos e escolas para isso.

A teoria, os conceitos, as metodologias são ensinadas de forma a habilitar qualquer pessoa a poder desenvolver bons produtos.

Por outro lado, a arte não pode ser ensinada.

Ou melhor, a teoria pode ser ensinada sim, a técnica musical, os conceitos fotográficos, as etapas de uma história. Mas poucas as pessoas vão se tornar o próximo Bach ou Shakespeare.

Existe algo inato nas pessoas que se aventuram pelas artes e que não consegue ser ensinado para os demais. Podemos aprender as diversas teorias e técnicas de pintura, mas qual a chance de nos tornamos um Pablo Picasso?

Em Design, a história é um pouco diferente. Qualquer pessoa está apta a desenvolver uma boa interface. É necessário muito estudo e dedicação, mas não se faz necessária aquela centelha talentosa inata aos artistas.

Portanto, se você gostaria de mudar de carreira e se tornar um UX Designer, não se preocupe, o caminho é muito possível!

Considerações finais

Ao longo desse artigo pudemos observar quanto o UX Design está mais próximo da ciência do que das artes.

Que fique claro que a ideia não é menosprezar ou abrir uma competição entre áreas e suas contribuições para o mundo.

Mas o principal objetivo é mostrar um ponto de vista que talvez não estivesse tão nítido.

Observar o UX Design como uma ciência facilita a compreensão de seus processos e ajuda a entender como devemos encarar os desafios na área.

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